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segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Soberba



Em nossa breve relação, fiz visitas que me deixaram bastante reflexivo. Entrava em seu edifício de luxo consciente do meu privilégio branco, nunca sendo parado pela guarda na porta. Atentos à qualquer ameaça, os seguranças mal me olhavam nos olhos, estáticos, certamente acreditando que eu fosse morador de um dos apartamentos. Eu subia as escadas com minha sacola de roupas e os cumprimentava sem medo, enquanto os motoboys tremiam na porta de vidro, temendo o risco de investidas violentas.

Ao lado dele me deleitei. Conversas na madrugada, obras de arte, taças de vinho e muitos chocolates. Ele contava histórias de vida, falava de sua trajetória profissional e sua conturbada relação com a família. Eu sabia que era um homem carente. Embora tentasse fazer com que parecesse ser bem resolvido, era nítido em seu olhar o desejo romântico de ter alguém especial e uma família estruturada. Mas o affair não era fácil. Me incomodava seu jeito ranzinza de ser. Suas falas eram carregadas de racismo, elitismo e soberba. Usava de sua posição social para camuflar as frustrações que colecionara ao longo da vida. Fingia ser frio e autossuficiente, mas o fazia de um jeito falso. Inúmeras vezes lamentei no banho o fato de alguém tão grande economicamente ser espiritualmente tão pobre. 

E eu preservava aquilo, acreditando que poderia torná-lo alguém mais humano. Em nossas conversas, tentei fazê-lo enxergar a desigualdade social e criticar o lugar de privilégios que ele tivera nascido. Não era fácil, mas eu tentava.

E, como já era de se esperar, numa noite ele se virou contra mim. Eu sabia que o momento chegaria, mas não sabia que seria tão rápido. Numa breve conversa comentei sobre seus remédios e 
ele se enfureceu. Me preocupava o fato de alguém relativamente jovem sobrecarregar o estômago com mais de 11 comprimidos ao dia.

Ele explodiu. Tentei abrir uma conversa descontraída e ele se exaltou. Gritou comigo como se eu fosse um ninguém. Expôs tudo o que pensava de mim mas que, por um lampejo de bom senso, evitava revelar. Não acreditava em minhas boas intenções e tentativas de amizade. Sem nenhum controle, criticou meu corpo e vociferou que não precisava de mim. Aquilo foi o bastante.

Minha presença lhe era irrelevante, pois tecnicamente tudo de mais essencial ele já tinha: dinheiro, viagens, histórias de burguês e outros rapazes com quem pudesse se envolver. Usou isso para me humilhar sem nenhuma responsabilidade. Pelo horário, aguentei firme. Era noite, não podia sair com minha câmera conquistada a duras penas. Dormi decidido a me despedir para nunca mais. 

No dia seguinte, comi mais chocolates, tomei o último café expresso e saí. Saí para nunca mais voltar. Deixei de segui-lo nas redes sociais, sem medo de olhar para trás. Recebi mensagens suas (é claro) e não respondi. Foi importante fazê-lo se repensar lidando com meu silêncio.

Tive que ser radical. Ele nunca mais terá chances de compartilhar momentos comigo. Não sou rico, não moro em bairro nobre e nunca pude comprar bombons sem limites, mas sou grande. Tenho alegria de viver, esperança na justiça social e a certeza que mereço muito mais do que a soberba de um sujeito vazio de amor.

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