Em nossa breve relação, fiz visitas que me deixaram bastante reflexivo. Entrava em seu edifício de luxo consciente do meu privilégio branco, nunca sendo parado pela guarda na porta. Atentos à qualquer ameaça, os seguranças mal me olhavam nos olhos, estáticos, certamente acreditando que eu fosse morador de um dos apartamentos. Eu subia as escadas com minha sacola de roupas e os cumprimentava sem medo, enquanto os motoboys tremiam na porta de vidro, temendo o risco de investidas violentas.
Ao lado dele me deleitei. Conversas na madrugada, obras de arte, taças de vinho e muitos chocolates. Ele contava histórias de vida, falava de sua trajetória profissional e sua conturbada relação com a família. Eu sabia que era um homem carente. Embora tentasse fazer com que parecesse ser bem resolvido, era nítido em seu olhar o desejo romântico de ter alguém especial e uma família estruturada. Mas o affair não era fácil. Me incomodava seu jeito ranzinza de ser. Suas falas eram carregadas de racismo, elitismo e soberba. Usava de sua posição social para camuflar as frustrações que colecionara ao longo da vida. Fingia ser frio e autossuficiente, mas o fazia de um jeito falso. Inúmeras vezes lamentei no banho o fato de alguém tão grande economicamente ser espiritualmente tão pobre.
E eu preservava aquilo, acreditando que poderia torná-lo alguém mais humano. Em nossas conversas, tentei fazê-lo enxergar a desigualdade social e criticar o lugar de privilégios que ele tivera nascido. Não era fácil, mas eu tentava.
E, como já era de se esperar, numa noite ele se virou contra mim. Eu sabia que o momento chegaria, mas não sabia que seria tão rápido. Numa breve conversa comentei sobre seus remédios e ele se enfureceu. Me preocupava o fato de alguém relativamente jovem sobrecarregar o estômago com mais de 11 comprimidos ao dia.
Ele explodiu. Tentei abrir uma conversa descontraída e ele se exaltou. Gritou comigo como se eu fosse um ninguém. Expôs tudo o que pensava de mim mas que, por um lampejo de bom senso, evitava revelar. Não acreditava em minhas boas intenções e tentativas de amizade. Sem nenhum controle, criticou meu corpo e vociferou que não precisava de mim. Aquilo foi o bastante.
Minha presença lhe era irrelevante, pois tecnicamente tudo de mais essencial ele já tinha: dinheiro, viagens, histórias de burguês e outros rapazes com quem pudesse se envolver. Usou isso para me humilhar sem nenhuma responsabilidade. Pelo horário, aguentei firme. Era noite, não podia sair com minha câmera conquistada a duras penas. Dormi decidido a me despedir para nunca mais.
No dia seguinte, comi mais chocolates, tomei o último café expresso e saí. Saí para nunca mais voltar. Deixei de segui-lo nas redes sociais, sem medo de olhar para trás. Recebi mensagens suas (é claro) e não respondi. Foi importante fazê-lo se repensar lidando com meu silêncio.
Tive que ser radical. Ele nunca mais terá chances de compartilhar momentos comigo. Não sou rico, não moro em bairro nobre e nunca pude comprar bombons sem limites, mas sou grande. Tenho alegria de viver, esperança na justiça social e a certeza que mereço muito mais do que a soberba de um sujeito vazio de amor.

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