
Sempre que minha mãe mudava de casa, eu procurava as vendinhas de doces no novo endereço. Meus olhos percorriam as varandas das casas buscando encontrar os potinhos de vidro vertiginosamente. Adorava comprar bolinhas de amendoim coloridas. Vivia pedinho dinheiro aos adultos e correndo no portão das vendas para gritar "me despaaache".
Nessa de comprar doces, às vezes a dona da vendinha perto de casa não estava presente e seu filho mais velho vinha me atender. Ele pausava o videogame e saía como estava, de short curto e sem camisa. Era alto, devia ter mais de 30. Ouvia meus pedidos com o semblante neutro e abria os potes lentamente, totalmente absorto. Punha os pedidos (bolinhas e afins) em papel-toalha e segurava na frente da pelve. "Toma, pega", dizia. Sem questionar muito eu enfiava os braços por entre as grades e ele me passava o embrulho de papel, aproveitando para segurar minha mão por alguns segundos e pressioná-la contra seu short. Era sutil, rápido. Eu o sentia estranho, mas nada que me deixasse traumatizado. Sem pensar muito, pegava minhas bolinhas e corria para casa.
Certa feita, estando eu já com uns 12 ou 13 anos, fui comprar pão no fim da tarde como de costume e o encontrei no caminho. Morávamos na mesma rua e ele estava sentado na calçada de casa. "Vem aqui, rapidinho", me chamou. Esboçava um sorriso no rosto. Sentei ao seu lado, tímido. "Me apresenta sua irmã?", ele pediu. "Mas vocês já se conhecem, somos vizinhos". "Mas não é desse jeito. Quero namorar com ela", falou. "Aaaah, mas ela já tem namorado", respondi. "Sei. Então você... quer namorar comigo?", ele perguntou, rindo, e pôs a mão sobre a minha, que segurava o saco de pão. Fiquei atônito. Na minha inocência de pré-adolescente, ter um namoro nem passava pela cabeça, ainda mais com um homem. "Não, obrigado", levantei e fui para casa, o riso nervoso. Lembro de ter me assustado com aquela "brincadeira" de dar em cima de mim. Ou, era assim que eu chamava, tamanha ignorância. Não entendia o porquê, mas me causou desconforto.
Hoje, guardado à distância, entendo que fui assediado. E o que mais me intriga é o fato de eu não me ver como algo desejável, não naquela época. Aos 12 anos eu não me via de forma sexualizada. Não existia sex appeal num garoto franzino e desajeitado, andando de shorts folgados pela rua de casa. Nem altura eu tinha. Aos 12 não tive um terço da desenvoltura que via nos adolescentes da minha idade.
É por riscos como esses que o conhecimento salva. Educação sexual é importante para dar nome ao desconforto que a gente sente em situações de assédio e importunação. Por muito pouco aquele rapaz poderia abrir o portão e me puxar para dentro de sua casa, abusando de mim. É o que acontece em muitos casos de violência sexual infantil.
Na casa dele moravam outras crianças. Me pergunto se ele não as importunava quando sua mãe saía, escondido nos quartos e usando o videogame para ganhar a confiança delas.
Dei sorte por não ter sido vítima daquele perverso. E sofro pelas crianças que têm sua inocência roubada, sem chances de se proteger.
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