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sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Um amor para recordar

File:The whole world's gone gay.jpg - Wikimedia Commons

Não era fácil assistir Um Amor para Recordar e me identificar com a mocinha comportada da escola. Os colegas do terceirão se esfregavam na saída e eu me sentia a versão masculina da Jamie. Inseguro, tímido, perdido. O careta jogado de lado que só era lembrado nos trabalhos em grupo, mas ninguém convidava pras festinhas de aniversário. E mesmo que eu fingisse ser moderno e descolado, minha virgindade me lembrava que eu era uma farsa. Eu queria me sentir amado. Queria mentir para minha mãe, fugir da aula para beijar na boca, ouvir música pensando nele e falar ao telefone antes de dormir, escondido embaixo do lençol. Eu queria editar fotos com moldura de casal e escrever nossas iniciais durante as aulas. Meus hormônios imploravam por romance, por sexo. Era chato flagrar amassos no banheiro do colégio e lembrar que minha aventura mais radical tinha sido na 6ª série, quando entrei no mar com a farda da escola por insistência de Kelly, minha melhor amiga da época. Me sentia covarde, o filhinho da mamãe. Pra idade que eu tinha, me sentia atrasado. E nem Kelly acreditou quando a acompanhei na praia da sereia, mesmo notando meu desconforto.

Aos dezoito me empolguei. Cansei de fingir ser rebelde com meu pingente de caveira e olhar atravessado. Entrei no tinder e dei vários matchs. Enquanto digitava, eu me surpreendia com minha própria coragem. Eu estava flertando com garotos, coisa que nem Kelly poderia saber. E eu quis tanto viver aquilo. É por isso que eu disse "sim", muito antes de encontrá-lo pessoalmente. A gente se empolga com o primeiro namorado. É normal. 

Talvez tenha sido meu romance mais importante. Amei, briguei, chorei, sofri. Foi dele que recebi minha primeira nude. As coxas, a boca, os óculos, a pulseira do Harry Potter. Fiz drama escorregando na parede do banheiro e senti o corpo tensionar a cada "digitando" que aparecia na caixa de mensagens. Foi um romance importante, mas muito breve. Tudo era rápido, imaturo, doloroso. A mão suava e eu não parava de fuçar seu perfil ao som de Todo Carnaval Tem Seu Fim, do Los Hermanos. Não foi fácil lidar com o primeiro término e vê-lo seguir com outro que fazia mais sentido do que eu. 

Hoje sinto que fizemos o melhor. Mesmo com a dor da lembrança de nossa despedida no viaduto da Avenida Luís Viana, não era ele. Não era para ser. Quando o vejo nos dias de hoje, sinto que em algum outro momento teríamos nos afastado. Não me vejo ali. Eu mudei, ele também. E mesmo o garoto que veio depois de mim já não está com ele. Tive outras histórias menos apressadas e entendi que romance é sempre assim. Tem dor, tem vigor, tem aprendizado. E aprendi com ele que nosso início está bem longe de ser a maior história de amor de nossas vidas. 

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