Textos

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Sou grato

Bíblia, livro, desenhar, idosos, dedos, mãos, piedosos, velho ... 

De vez em quando tiro dia para ouvir minha avó falar. Sento bem pertinho e aproveito cada detalhe de suas histórias. Assim como eu, ela é nostálgica. Fala com saudosismo de sua infância em Murundu e sorri ao relatar a experiência como ajudante na fazenda de seu Félix. Disse que corria com os irmãos em campos floridos do Rio da Areia e se refrescava nas cachoeiras do Caimbongo até o sol se pôr. É a típica capricorniana que não foge do trabalho. Apesar de reclamar do quão difícil era a colheita de arroz, quando passava horas fazendo a lavagem e atravessando o rio de lama com bacias na cabeça, ela daria tudo para viver aquilo novamente. Uma infância feliz, pelo visto. Sente falta dos irmãos já falecidos, da plantação de bananas e da ingenuidade. Ri de quando comprava os melhores tecidos no ateliê da dona Rosa e se exibia nas missas da cidade, matando de inveja os curiosos que também queriam fazer roupas bonitas como as dela. 

Era a queridinha do pai, o seu Alexandre. Eu gostaria de tê-lo o conhecido. Queria ver de perto o caipira amoroso que nunca ousou a levantar a mão para educar os filhos. Sua mãe, minha bisavó, era um pouco mais bruta, a impaciente da casa. Uma mulher de poucas palavras e muita rigidez. Tinha aquela pose de senhora Trunchbull e exigia muito das crianças. Esse era inclusive o principal motivo das brigas entre o casal.

Minha avó é a mistura perfeita dos dois. Não os conheci, mas pelo que ouço, seu Alexandre e dona Maria são muito presentes na personalidade da filha. Minha avó é sisuda, desconfiada, intuitiva (como sua mãe), mas muito dedicada com o bem estar de quem ama (como seu pai). É o tipo de velhinha que não mede esforços para fazer a alegria dos netos. Passei a infância vendo ela chegar do serviço com a bolsa cheia de Biotônico Fontoura, três vezes ao ano. Nunca estivemos "gordinhos e saudáveis" ao seu gosto. Reclama que não me alimento bem, mesmo que me veja comendo sem parar. É do tipo que prepara chás para qualquer resfriadinho e entende que violência não é o melhor caminho para educação. Sempre esteve atenta à qualquer um que tentasse me fazer mal. E com ela, sempre me senti protegido.

Sou grato por vê-la todos os dias, no auge de seus 77 anos. Sou grato por ainda poder sentar-me bem pertinho para ouvi-la. Sou grato por todos os anos que ela fez questão de comprar meus materiais da escola. Sou grato pelas lembranças de vê-la na cozinha enquanto eu assistia Sítio do Picapau Amarelo com meu irmão. Sou grato por ouvi-la reclamando da psoríase enquanto espalho creme em suas costas. Sou grato por todos os meus segredos que ela guardou (e ainda guarda) com muito cuidado. Sou grato por todas as vezes que ela cortou minhas unhas no sofá da sala enquanto assistia televisão. Sou grato por todo apoio que sempre recebi em qualquer projeto que invento. Sou grato por saber que ela me defende quando muitos não entendem o porquê dela me defender. Sou grato por ter crescido com uma mulher tão forte e autêntica. Sou grato pelo privilégio de ainda tê-la aqui, respirando perto de mim. Sou grato. Sou grato. Sou grato.

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