
Me ocorreu de pensar que se Alessandra e eu fôssemos amigos na 5ª série, não teriam tantos bullies me cercando no corredor da escola. Ela seria as mãos de quem espanta moscas da mesa de café da manhã. A confraternidade da garota é descomunal. Muito antes de me aproximar, a observei de longe. Ela chorava sem parar com um filme que exibiram na escola. Ficou tocada com Amor Sem Fronteiras, onde Angelina Jolie arrecada fundos para causas humanitárias. Ali tive a certeza de que seríamos amigos. Alessandra é protetora, sensível, do tipo que rega a plantinha da amizade para não deixá-la morrer. Me dei conta disso no finalzinho do ensino fundamental, quando nos aproximamos para valer. Nos conectamos, debaixo do sol quente da ladeira do abaeté. É empática até a última gota, do jeito que não consigo ser. É amiga, para todas as horas. Pede ajuda discretamente para não atrapalhar os amigos, embora estes a perturbem com pedidos de ajuda até na madrugada. Se preocupa com o bem estar de todos.
É fiel e desconfiada. Sabe chegar em assuntos densos que poucos conseguem me acessar. Foi a primeira pessoa fora de casa com quem abri minha sexualidade. Não julgou, não se assustou, só ouviu. E foi natural, sem pressão, sentados no batente de uma padaria. Me fazia rir na esquina da rua Álvaro Baqueiro sem saber que aquilo servia como cordas que me puxavam para fora do poço. Era o respiro de um momento asfixiante. Foi com ela que assumi os primeiros rapazes que me chamavam atenção. "O moço da barbearia? Não vejo isso tudo não", cochichava em tom de humor. Sempre foi assim, bem humorada. Baiana engraçada, embora discreta. Se aproxima lentamente e surpreende com um comentário ao pé da orelha. Sabe ser intuitiva, mas dá chances para novas amizades. Se filmada, vira meme, tipo as Fadas do Deboche. Observa de longe e solta aquela observação ácida que faz todo mundo rir. É minha amiga mais engraçada.
Não é exatamente perfeita. Está longe de ser politicamente correta. Mas se esforça, por respeito. E como todo bom nativo do signo de ar, ela se importa em como o outro se sente, mesmo que precise abrir mão da sua vontade de gargalhar alto. E guarda segredos, inclusive os próprios. Não se abre com facilidade e pensa muito antes de fazê-lo. Segura a barra de todos e esconde as próprias dores. Me parece um protótipo de siri marinho. Aquela espécie que a gente encontra na praia e persegue com um palito de picolé. A priori, é arisca e intimidadora, mas se esconde ligeiramente na pedra úmida quando todos se distraem. E ela gosta disso. Como a mesma diz, ela é Docinho, das Meninas Superpoderosas. Nunca ousei duvidar. Pode ser difícil decifrá-la, principalmente quando não a conhecem, mas é cheia de sentimentos. Para mim, sempre é vista com transparência. Talvez pela relação de amizade e por termos o mesmo elemento astrológico. Não é boa em me enganar e acredita que consegue. Seu amor é comedido. É fechada, atenciosa, nostálgica à beça. Guarda fotos e mensagens de 10 anos atrás. Fico pasmo com a paciência dela de revisitar arquivos em respeito às memórias do que já viveu. Esse texto ela vai guardar, não tenho dúvidas.
Não me surpreendo se ela desenterra numa conversa alguém do passado que já não lembro o rosto. Não me surpreendo se vê-la ouvindo rock pauleira e três minutos depois pular para uma música que se destacou no Movimento Tropicalista. Não me surpreendo se ela me manda um "saudades" no inbox às 4h da manhã ou reclama do ronco de alguém que não a deixa dormir. Já nem sei como ela tem paciência com a minha variação de humor e mania de fazer quadradinho depois de bêbado em festas de aniversário. Talvez ela seja grata por eu respeitar sua coleção de sapos de pelúcia e sua solidariedade com gente mal agradecida. Essa parte nunca entenderei.
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