
Até que sou pacífico. Talvez isso se explique no meu mapa astral, mas é fácil afirmar que faço o tipo manso, neutro, majoritariamente calmo. Faço o possível para fugir do embate.
Poucas vezes me verão furioso, espumando de raiva como personagens de desenhos animados que aparecem com o rosto vermelho e soltando fumaça das orelhas. Muitos desgastes são desnecessários. Não me revolto com arestas que podem ser facilmente ignoradas.
Quando pequeno, as tias do grupo da igreja elogiavam minha mãe pelo meu comportamento. "Fabio é um amor, muito educado." Davam leves batidinhas na minha cabeça por ser muito obediente. Enquanto outras crianças brigavam e se xingavam, tacando vassouras de limpeza em cima um do outro, eu me mantinha quieto, sentado no banquinho, concentrado em decorar a letra do louvor. E até recebia um tratamento especial. Ganhava cadernos de desenho e pirulitos pop cereja, para servir de exemplo aos demais.
Também não consigo acompanhar gente raivosa. O tipo que explode fácil e surta de impaciência com qualquer atraso e birrinha de bebê dentro do ônibus. Aliás, estou mais perto de ficar irritado com quem olha torto pros pais envergonhados que não sabem controlar seus filhos em público.
Para me tirar do sério, precisa realmente fazer sentido. Com certeza as injustiças, a falta de humanidade e o descaso do governo são capazes de me tornar tão furioso quanto a senhoria do (filme) Kung-Fusão.
É desesperadora a soberba de um desembargador que desdenha da lei, a política do Brasil, a epidemia de abandono parental e a consciência de que crianças são violentadas desde a mais tenra infância por aqui. É um misto de nojo, raiva e indignação. E me deixa em estado de alerta, preocupado com qualquer ser indefeso perto de mim. A calmaria vai embora de modo fulminante.
Não é fácil acompanhar notícias e me deparar com um Brasil que corrói a alma. É mais que um soco no estômago, é como engolir três litros de ácido sulfúrico. É se sentir impotente. É um prato indigesto.
Tudo tem me deixado neurótico, perturbado. As tias do coral talvez se assustassem com essas facetas da minha nova personalidade. Se a senhoria do Kung-Fusão arregaça as mangas para socar os moradores do Chiqueiro de Porcos (sua vila) que não pagam o aluguel, certamente ela teria uma síncope vendo como o mundo se comporta diante da pandemia atual. É um cenário nocivo, adoecedor. Tem sido cada dia mais difícil encontrar a calmaria nessa sensação de que a paz nunca reinará.
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