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Todo mundo já se pegou ensaiando entrevistas. Sonho com isso desde a infância, quando ainda usava tênis de velcro. Seja pro Faustão, Ana Maria Braga, Jô Soares, Pedro Bial. A gente alimenta o sonho de estourar como uma popstar e aparecer em programas de tevê para falar de nossa trajetória humilde e de como fomos rumo ao estrelato. E a gente é exigente. Ninguém quer ser entrevistado por um jornal regional. Sempre que vemos um(a) repórter com microfone cabeçudo na rua, sentimos o medo de ser abordado. Aquele frio na barriga e vontade de fugir do risco de aparecer em um telejornal diário com o cabelo desgrenhado para falar de enchentes e suspensão de aulas. Para maioria de nós, é dolorosa a hipótese de ser reconhecido por algum conhecido que nos verá errando o português de tanto nervosismo ao falar do comércio local. A gente quer ser sereno e usar palavras rebuscadas para falar do nosso último livro no programa Espelho do Lázaro Ramos.
O que a gente quer vai além. Primeiro uma carreira sólida. Sermos reconhecidos pelo nosso indiscutível talento e sucesso publicitário. A gente quer admiradores e jornalistas importantes para fazer questionamentos filosóficos em seus programas de caráter intelectual. A gente quer sentar de frente com a Gabi para falar da infância e finalizar com o bate bola, jogo rápido. A gente quer ser visto com seriedade pelas maiores personalidades do país e sumir de vez em quando para se reconectar com a natureza em Fernando de Noronha e dizer ao Pedro Bial que detox tecnológico é sempre importante. A gente quer anunciar que tiramos um tempo para esfriar a cabeça, pisar descalços na terra e buscar inspirações para projetos futuros. A gente quer fazer fotos com anônimos depois da fama para deixar claro que não esquecemos nossas origens. A gente quer muito dinheiro para depois dizer que ele não trouxe felicidade. A gente quer chamar atenção e reclamar de quem invade a nossa privacidade. A gente tem ego.
Mas estamos desolados. Parece que a tevê de hoje não bomba tanto como nos anos 2000. Estamos cada vez mais distantes da chance de ouvir um aaaah da plateia no fim do programa. O público de hoje tem pouca paciência para entrevistas longas, Jô Soares saiu do ar, Antônio Abujamra não tá mais vivo para me perguntar "o que é a vida?" e parece que a Marília Gabriela andou declarando que o teatro é sua nova praia. Entramos em crise. Ainda não me senti o Eduardo Moscovis batendo ponto no Faustão todo domingo para falar do seu sucesso na novela das seis. Meu menino interior torce para que o reconhecimento não demore a chegar, pois não sabe o que o derradeiro Pedro Bial pensa da tevê aberta. Confesso que a sensação de pisar no palco e receber aplausos de pé ainda me soa interessante. E por mais que seja difícil assumir em voz alta, quero a fama, o dinheiro e os holofotes sem nem saber se saberei lidar.
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