
Quando nos vimos naquele tardal, não imaginei que viveríamos algo tão intenso. Muito simpático e comunicativo, ele não entendeu minha cara de poucos amigos. Eu tinha pose. Não fui sucinto por timidez. Queria fazê-lo acreditar que eu era soturno, enigmático. Rodamos o Jardim de Alah no mesmo grupo e acabei me rendendo àquela conversa. Deixei a armadura de lado e me abri como há muito não havia feito. Conversamos, rimos e nos despedimos com sorrisos. Dias depois ele estava na minha casa. Amigo da família que tornou-se meu amigo por osmose, de forma orgânica. Com o tempo, ele já vinha direto para me ver. Saía da Mussurunga e passava tardes comigo falando da vida. Não tínhamos nada que pudessem apontar como "algo a mais".
Não sei bem o que aconteceu. Tudo mudou e agora nos olhávamos de um jeito diferente. Tinha ternura, cuidado, tensão. O beijo aconteceu. Fiquei dividido entre evitar ou nos permitir, mas não teve jeito. Parecíamos dois pombinhos, grudados no quarto escuro, dividindo o mesmo colchão. Na rua, ele me protegia da chuva com seu casaco marrom e se revoltava quando eu bebia demais. Gargalhávamos na madrugada e escondíamos qualquer comida no quarto. Ele amava os cachorros-quentes que a minha mãe esquecia no fogão. Era lindo.
O garoto não tinha medos. Atitude na medida certa, do tipo que eu gosto. Embora me enfurecesse quando me agarrava em lugares totalmente inapropriados. Era de dar raiva. Me seguia no banheiro e fechava a porta para me encochar enquanto eu lavava o rosto. Eu fechava os olhos e ele me bolinava, todo sábado de manhã. Me acostumei a senti-lo atrás, pressionando minha bunda com sua samba-canção. Era escondido, gostoso. A adrenalina nos possuía e tornava o mundo mais interessante, erótico. O proibido sabe remexer. Ele provocava. Abria o zíper e me convencia a chupá-lo na cozinha, com a porta da geladeira aberta. Eu me agachava para buscar algo na última gaveta e ele puxava minha cabeça, sem temer o risco de sermos flagrados. E com a mesma coragem, assumia que me amava. Me pedia em namoro e eu disfarçava. Eu tinha medos, indecisão.
Me amortecia vê-lo acordando. Se arrastava pela cama, dengoso, e abraçava minha perna esquerda. Eu me esquivava, fugia. Sua insistência me paralisava. E eu ria, sem jeito. Temia me entregar e o perder. Me acostumei com os beijos, amassos e olhares no sofá da sala. Fiz minha escolha e o deixei tentar o amor que eu nunca daria. Era estranho, mas protelei o quanto pude. Dei corda, fui cruel. E como é de se esperar, num dado dia ele cansou. Se foram os beijos, as visitas, declarações de amor. Vivi a dor por não ter sido responsável o bastante. Fui imaturo, adolescente. E por mais que não tenhamos dado nome ao que tivemos, o que existiu nunca será perda de tempo.
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