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sexta-feira, 14 de agosto de 2020

A vida é um palhaço sorridente

 Homem Adulto Macho - Foto gratuita no Pixabay

25 anos já é idade suficiente para me considerar adulto. E pasmem, não me vejo com 25 anos. Também não me vejo como adulto. Não "aquele tipo" de adulto, sabe? Não daquele jeitinho que a gente imagina quando criança. Não tô nem perto de ser o que eu esperava para alguém que passou dos 24. Minha ficha tem caído com carinha de deboche. Não sei como ousei acreditar que eu viveria como Tony Ramos e Glória Pires em "Se Eu Fosse Você". Naquele tipo de mansão? Saindo pro trabalho depois de ter comido mamão em compota no café da manhã? Com 25 anos? Acho que não. Meu paladar ainda nem aceita mamão. Faço parte do time que está mais próximo do Coringa de Joaquin Phoenix. Quem apelidou a vida de "caixinha de surpresas" está coberto de razão. E essas surpresas podem não ser tão boas. Não entendo como pude acreditar que alguém como eu pudesse ter uma casa própria mobiliada e um carro vermelho no subsolo antes dos 25. Eu nem quero ter carro, ainda mais vermelho. A chuva de tapas na cara acaba de começar e suspeito que essa nuvem continua carregada. Ainda nem comprei meu guarda-chuva, diga-se de passagem. 

Eu gostaria de subir em um púlpito e conversar com uma multidão de crianças que estão cheias de expectativas. Eu já estive lá. Me fizeram acreditar que adultos teriam respostas para qualquer pergunta. Que eles conheciam todos os livros, que não tinham medos, que não choravam, que nunca os faltaria dinheiro para comprar bebidas no bar do seu Zé, que só seguiam ordens do chefe e que todos à sua volta dariam atenção às suas histórias. A vida é um palhaço sorridente que puxa uma bolinha da minha orelha, contente por ter me enganado. É verdade, enganou. Agora presto atenção em cada movimento desse palhaço, para saber onde ele enfiará a bolinha novamente. Nunca me tatuei, não moro sozinho em um apartamento com chão de tacos, nunca vi a polícia bater em minha porta por ouvir música alta, continuo roubando balinhas de hortelã no armário do meu avô, ainda pergunto se sobrou remédio para coriza na bolsa da minha mãe e rio das ideias de tatuagens que eu quis fazer anos atrás. 

Tenho minhas conquistas, mas nada próximo da quantidade que idealizei para 25 anos. Definitivamente não me tornei o moço corpulento que corre pelo Centro Histórico atrasado pro trabalho. Me sinto alguém vendado no meio de um tiroteio. A multidão de adultos aflitos se esbarram em mim e me derrubam no chão, tendo eu que me levantar sozinho sem saber para qual lado correr. Decisões, economias, pressão para curtir o tempo que jamais voltará, ansiedades, técnicas de respiração, quartos bagunçados, uma ou outra gargalhada e exercícios de calma. Muita calma. Faço drama de vez em quando, meus professores me julgam com o olhar, tenho dormido em parcelas, me atraso sem querer e já desisti da ideia de formar casal tipo Glória Pires e Tony Ramos.

E eu faço drama, igualzinho criança em fila de supermercado. Este texto é puro drama. Pois, por incrível que pareça, o trabalho de calma tem surtido efeito. Não estou tão desesperado quanto pareço. Meu erro foi ter me dado pouco tempo para construir muito. Tenho dúvidas (como qualquer outro adulto) e mudo de opinião o tempo todo. Já nem sei se é legal reunir uma multidão de crianças para quebrar o encanto. Talvez faça parte do jogo permiti-las de tomarem esse choque sozinhas, sem aviso prévio. Não sei. Estou perdido. Como adulto, posso dizer que consigo rir de tudo isso. Aprendi que o trágico pode ser cômico. Por ora, só me ocupo em tirar a venda para descobrir quem segura as armas no tiroteio.

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