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sexta-feira, 18 de maio de 2018

Sobre mim


Ficheiro:Garoto observa painel do projeto da Linha Leste-oeste do ...

Oi, Fabio, tudo bem? Aí está você com a cara no computador, né? Sua mãe sempre fala que o brilho da tela é a causa da sua dor de cabeça permanente e você não dá ouvidos. Sabe que não tem 17 anos e que a vista já está cansada, mas continua fazendo pesquisas inúteis até às cinco da manhã. Realmente, pouco dá para te levar em consideração. 

Hoje descobriu que o amigo de infância está de molho por conta de um acidente de carro. Você tem tempo para visitá-lo, mas morre de preguiça das vizinhas do Bom Viver. Vão se assustar com seu jeitinho afeminado e perguntar se teu piercing do septo dói.  Sim, Alan dirige. E já namora há quase quatro anos. Ele também cresceu. Mudou. Disse até que quer cursar Engenharia Mecânica ano que vem. Não é mais o mesmo chorão de joelho ralado que corria para casa minutos antes do pai chegar do trabalho. Ele tinha medo de apanhar por andar descalço no campinho, lembra? São coisas da infância. Seu Zenildo já não usa a palmatória. Ele até conversa com Alan de igual para igual na varanda de casa. Falam de contas do mês e não dão pitacos nos planos de vida um do outro. Seu Zenildo mudou. Talvez se surpreenda com o sarcasmo que antes você não tinha, mas com certeza lhe reconhecerá. 

Mas e você, Fabio? Continua aí, né? Levando uma vida mansa de universitário mimado que tem quase tudo o que quer. Só quer festas da faculdade, bebidas, ficantes e um sapato novo. Lembro do texto desesperado que você escreveu anos atrás sobre sair de casa. Você relaxou e ainda não sei se isso é bom. Te sinto menos angustiado. Entendeu que a vida vai te levar para onde ela quiser. Tá, eu sei que você tem planos e não quer parecer um vagabundo irremediável. Não brigo com você. Somos a mesma pessoa, lembra?

Daqui a pouco você termina o curso de cinema. Sabe que não vai ser rápido, mas parou de se cobrar. Isso é bom. Eu sei de todos os seus planos e sei também que sua conduta não é bem vista por quem vê de fora. Você descobriu o que gosta. Saiu do WhatsApp e nunca mais voltou. Você sabe o que fazer. Mesmo que duvidem do seu futuro, você continua se achando brilhante. Aliás, se acha demais, mesmo enxergando inseguranças. Como conseguiu chegar aí? Parece inabalável. Você sabe no que é bom e sempre se diverte com isso. É um bom ouvinte, sabe dar conselhos, mas não quer cursar Psicologia. Esse lance de ficar preso numa sala com um ansioso carentão já não te contempla. Não tem saco para ouvir alguém falar dos traumas de infância e do pássaro azul que seus pais não compraram na última viagem pro Japão. tá mais para ombro amigo de barzinho. É bem o tipo que descobre os segredos mais profundos em 20 minutos de conversa com recém-conhecidos. Você gosta do seu corpo, lê bastante sobre sexo e até pretende investir em Educação Sexual daqui uns anos. Por enquanto você cultiva a vontade de trabalhar em sex-shops, escrever roteiros transgressores e renovar o cenário cinematográfico brasileiro. Você ri porque sabe que não é algo fácil de se fazer, mas continua repetindo a mesma ladainha porque acha divertido. 

Você é mesmo um bobalhão. Acabou de rir do preenchimento labial de uma gringa anônima e das garotas tristes pelo casamento real no próximo sábado. Chega ser bizarro achar graça das românticas que queriam entrar para a realeza no lugar da noiva do príncipe Harry. Essa gente é esquisita, né? Concordo com você. Leio seus pensamentos e não consigo entender o porquê da tamanha sofrência para casar com um britânico ruivo que joga golfe e vai trair a esposinha atrás do palácio inglês com alguma funcionária iludida. Ah, sim, ainda tem isso: você não acredita mais em monogamia! Tirou um peso das costas, hein? É mais prático. Seu ex está fazendo gastronomia e provavelmente acha que você ainda o ama. 

Pouca gente vai te entender com esse texto e você pouco se importa. No fim das contas, isso é algo entre nós, eu e você. Eles mal sabem quem você é. Você ri deles e eles riem das piadinhas que você faz no Facebook. Se acham cruciais e mal sabem que você consegue desfazer conexões com um estalo de dedos. Te imaginam sofredor, fraco, mole. Você é tudo isso, mas não do jeito que eles acreditam. Você é complexo e aprendeu a lidar com isso.

Vamos parar por aqui, vamos deixar nas incógnitas. Vamos continuar seguindo nossos caminhos sem perder o equilíbrio. Esse é você. Esse somos nós. E vamos continuar porque aprendemos a achar divertido.

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